Teresa Carreño

16/09/2016 00:04

Compositora do mês: Teresa Carreño (1853-1917)


 
Biografia

A compositora venezuelana Teresa Carreño nasceu em Caracas, a 22 de dezembro de 1853. Batizada como Maria Teresa Gertrudis de Jesús, iniciou os estudos de piano com seu pai, Manuel Antonio Carreño, ao redor dos seis anos. A musicalidade e curiosidade aguçadas já a incentivavam a explorar o instrumento desde os três, tirando melodias de ouvido e criando acompanhamentos com a mão esquerda. Teresa recorda que ao completar dez anos seu repertório já incluía peças de extrema dificuldade, como a Quarta Balada de Chopin, entre outras.

Devido à instabilidade política e aos contatos do pai, que chegou a ser ministro das Relações Exteriores da Venezuela por um breve tempo, Teresa e a família mudam-se para os EUA em 1862. Em New York, Manuel Antonio organiza saraus em sua casa para introduzir a pequena pianista ao rol dos artistas norte-americanos e europeus que por lá passavam. Assim Teresa conhece o pianista e compositor Louis Moreau Gottschalk, que lhe dá aulas de interpretação e a recomenda para apresentações públicas em teatros importantes. A família Carreño passa a depender dos ganhos financeiros da menina, que assina seu primeiro contrato com o empresário L. F. Harrison aos nove anos de idade e publica sua primeira composição aos dez.

Em 1863, Teresa é convidada a se apresentar na casa do presidente Abraham Lincoln. O status de criança-prodígio obriga-a a uma agenda ininterrupta, que começa a ser criticada, entre outros, por Gottschalk. Tentando não sobrecarregar a menina, o pai investe grande parte de seus ganhos em uma empresa, que acaba por falir. Visando conseguir uma melhor situação para todos, leva a família para tentar a vida em Paris, em 1866.

Na Cidade Luz, o famoso fabricante de pianos Erard se encarrega de apresentar a pequena Teresa ao meio musical. A menina encanta as plateias e recebe elogios da imprensa, sendo admirada por mestres como Rossini e Liszt. Empreende novas maratonas de concertos, nos quais insere composições próprias ao lado de obras de Thalberg, Beethoven e Gottschalk.

Ao completar vinte anos, casa-se com o violinista francês Emile Sauret e concebe sua primeira filha, Emilita. O casal logo percebe os transtornos de viajar com um bebê, trocando de hotéis e cidades em condições às vezes precárias. Soma-se a isto a competitividade entre os dois artistas, com nítida vantagem de Teresa Carreño. A separação se dará em 1877 e Teresa, só e sem condições de criar Emilita, concorda com a oferta de uma amiga rica em adotá-la. Após muitos anos tentaria reverter este processo, sem sucesso.

De volta a New York, Teresa se une informalmente ao barítono Giovanni Tagliapietra. Em 1878 nasce sua segunda filha, Lulu, que falecerá aos três anos. Visando uma maior estabilidade profissional e financeira, a compositora cria uma empresa com a cantora Emma Donaldi para organizar e produzir os concertos de ambas. Em 1882 nasce Teresita e em 1885 Giovanni. Este é um período estável em que a compositora estuda, leciona e se apresenta, conseguindo compatibilizar as atividades profissionais com a vida familiar.

Em 1885 Teresa é convidada a tocar em Caracas, sendo recebida com pompas e cerimonias. Sob encomenda estatal compõe o Hino a Bolivar, para celebrar o centenário de nascimento do libertador da Venezuela. Decide ir buscar o marido e os filhos nos EUA e retornar ao seu país de origem, para fundar uma companhia de ópera. A empreitada venezuelana resulta em fracasso e a compositora retorna com a família aos EUA, em 1887, falida e desmoralizada.

Uma terceira separação leva Teresa a se mudar, com os filhos, para Paris. Acolhe-a seu irmão, então embaixador da Venezuela na França. Teresa ainda realiza turnês de concertos e empreende um quarto casamento, desta vez com o compositor Eugen DÁlbert. Apesar de conceberem duas filhas, Eugenia e Hertha, o divórcio viria em 1894, com Eugen acusando a esposa de adultério e até de insanidade mental. Embora tais acusações sejam infundadas, é fato que a saúde da compositora começa a se deteriorar desde então.

Teresa Carreño falece em 1917, aos sessenta e quatro anos. Parentes e amigos diriam que foi de cansaço, dada a infinidade de turbulências que enfrentou durante a vida. Suas cinzas estão em Caracas, no Panteão da Venezuela. É considerada uma das maiores compositoras e intérpretes latino-americanas.

 
Composições

Teresa começou a compor aos sete anos. Criava peças de salão, como polcas e valsas, mas também algumas contemplativas ou de caráter mais austero. Aos dez anos teve a primeira peça publicada, Vals Gottschalk, com a qual homenageou o grande pianista que a apoiou desde sua chegada aos EUA. Seguem-se a esta peça outras composições dedicadas a pessoas e ocasiões especiais, como Saludo a Cuba e o Impromptu ofertado ao compositor e pianista cubano Nicolás Ruiz Espadero, quando em turnê pelo país caribenho.

Assim como ocorreu a Clara Schumann, a composição de Teresa foi diretamente influenciada pelo repertório que ela interpretava em recitais (em geral, peças dos períodos Clássico e Romântico). São obras virtuosísticas, geralmente para piano, com acordes amplos, sequencias de oitavas em ambas as mãos e passagens tecnicamente difíceis, como pode ser conferido em Le Printemps Op. 25. A autora escolhia tons com diversos sustenidos (ou bemóis) e aplicava escalas em terças e/ou sextas, como as cascatas de notas usadas por Thalberg e Liszt. Nas grandes formas, fazia questão de manter uma relação de coerência entre as tonalidades dos movimentos, como fazia Beethoven.

A música autóctone da Venezuela também marca a composição de Teresa Carreño, principalmente pelo uso simultâneo das métricas ¾ e 6/8 sobrepostas ou justapostas. Danças como a Vals, Polka e Mazurka, derivadas das suítes europeias, incorporam melodias locais. Seu Bal em Réve exemplifica o uso destas práticas, uma vez que o ritmo feito por três colcheias seguidas de duas colcheias pontuadas alude ao merengue venezuelano. Em todas elas Teresa, introduz cromatismos aos acordes tradicionais para dar-lhes coloridos próximos aos da música romântica alemã, conferindo assim ares de música erudita.

O contato com Rossini e a música italiana influenciam Un Revue à Prague Op 27, também conhecido como Caprice de Concert. O gênero Capricho fora explorado por Mendelssohn, Chopin e Clara Schumann, pelo encantamento com a Itália e a ópera. Trata-se de mais uma peça virtuosística, de caráter alegre e espirituoso. Aqui nota-se a intenção de Teresa de inserir alguns trechos sincopados, característicos da música latino-americana, numa prática inversa à citada no parágrafo anterior.

Em Veneza é inspirado o murmúrio pendular da Reverie-Barcarolle Op. 33, que recorda o movimento das gôndolas pelos canais da cidade. Ainda pensando na Itália, Florence Cantilene Op. 34 é considerada por muitos a joia de sua fase mais madura. Outras composições de destaque são os estudos da compositora, enfocando dificuldades por que passam pianistas no decorrer de sua trajetória. Este é o caso de Le Ruisseau Op. 29, um estudo de salão que se propõe a treinar intervalos de sextas consecutivos em ambas as mãos. Por sua vez, Un Rêve en Mer traz acordes sucessivos em velocidade mais amena, sendo chamado por Teresa de estudo-meditação pela atmosfera de mantra.


 

Para conhecer sua obra:
  1. The Norton/Grove Dictionary of Women Composers, de Julie Anne Sadie & Rhian Samuel (Ed). New York, London: The Macmillan Press Limited, 1995. pp. 106-107.

  2. Mulheres Compositoras elenco e repertório, de Nilcéia Baroncelli (livro). São Paulo: Roswitha Kempf Editores, 1987. pp 62-63.

  3. Teresa Carreño: una biografía autorreferencial, de Violeta Rojo. Universidad Simón Bolívar, 2006. Disponível em: http://159.90.80.55/tesis/000147104.pdf.

  4. Teresa Carreño and her piano music, de Franco Gurman. University of Florida, 2006. Disponível em: etd.fcla.edu/UF/UFE0013744/gurman_f.pdf

  5. On women and composing in Latin America. An Approach, de Graciela Paraskevaídis. Disponível em: www.gp-magma.net/pdf/txt_i/Mujeres-WNMM.pdf

  6. Teresa Carreño: una excepcional compositora venezolana del siglo XIX, de Juan Francisco Sans. Revista de Investigación nº 69, vol. 34. 2010. Disponível em: http://www.scielo.org.ve/pdf/ri/v34n69/art03.pdf

  7. CARREÑO, T. Vals Mi Teresita (Gravação ao piano, Clara Rodriguez). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=W6GuVJDv3w8

  8. CARREÑO, T. La Cesta de Flores (Gravação ao piano, Clara Rodriguez). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5pwEFIpY-dU

  9. CARREÑO, T. Ballade Op. 15 (Gravação ao piano, Alexandra Oehler). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FYfPwc89AdY

  10. CARREÑO, T. La Fausse note. (Gravação ao piano, Clara Rodriguez). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zicw3WetjCo


 


 

 

Composer of the month: Teresa Carreño (1853-1917)


 

Biography

The Venezuelan composer Teresa Carreño was born in Caracas in December 22, 1853. Baptized under the name Maria Teresa Gertrudis de Jesús, she began her piano studies with her father, Manuel Antonio Carreño, approximately when she was six years old. Since the age of three she showed a sharp musicality and curiosity that encouraged her explorations on the instrument through melodies keyboard decoding and left hand musical accompaniment. Teresa recalled that when she was ten years old her repertoire already included pieces of extreme difficulty, such as the Fourth Ballad by Chopin, among others.

In 1862 Teresa and her family decided to move to the U.S. as a consequence of the political instability in Venezuela and thanks to her father connections, who had been Minister of Foreign Affairs for a short period of time. In New York Manuel Antonio organized soirées at home in order to introduce the little pianist to the scene of American and European artists that visited the city. Thus Teresa was introduced to pianist and composer Louis Moreau Gottschalk, who gave her interpretation classes and also recommended her to public presentations in important theaters. The Carreño family gradually grew dependent to the income earned by the child prodigy, who signed her first contract with manager L. F. Harrison when she was ten years old and had her first published composition at the age of ten.

In 1863 Teresa was invited to perform a piano concert at the house of president Abraham Lincoln. Her condition of child prodigy compelled her to a non-stop schedule that became criticized by professor Gottschalk, among others. Attempting not to exaggerate the burden upon Teresa’s shoulders, her father invested a great amount of her gains in an enterprise that unfortunately ended up filing for bankruptcy. Aiming to reach a better situation to all, Manuel Antonio decided to move the family to Paris for a fresh start in 1866.

In the City of Light, the famous piano manufacturer Erard became engaged in introducing little Teresa to the musical scenery. She succeeded in charming the new audiences, receiving compliments by the press and enjoying the admiration of masters such as Rossini and Liszt. Resulting from that she started to undertake new marathons of concerts in which she included the performances of her own compositions aside to works by Thalberg, Beethoven and Gottschalk.

When she was twenty years old Teresa got married to the French violinist Emile Sauret and gave birth to her first child, Emilita. The couple soon realized the inconvenience of touring together with a baby, changing hotels and cities (sometimes under precarious conditions). Another additional burdening factor was the competition that surfaced between the artists, with a clear advantage towards Teresa Carreño. They finally decided to separate in 1877 and Teresa, alone and without proper conditions to raise Emilita, accepted an offer by a wealthy friend of hers to adopt the child. Later, after many years, Teresa tried to revert this process but did not succeed.

Returning to New York, Teresa engaged in an informal commitment with baritone Giovanni Tagliapietra. In 1878 she gave birth to her second daughter, Lulu, whom would die at the age of three. Aiming to reach a higher level of professional and financial stability the composer created a company with singer Emma Donaldi to organize and produce the concerts to both of them. Resulting from her relationship with baritone Tagliapietra Teresa gave birth to Teresita in 1882 and to Giovanni in 1885. This was a stable period for the composer once she could focus in studying, teaching and performing concerts in a good balance between her professional activities and the family life.

In 1885 Teresa was invited to perform in Caracas, being received with pomp and ceremony upon her arrival. She also received a state commission to compose the Hymn to Bolivar as part of the Venezuelan Libertador centennial celebrations. Resulting from this successful process Teresa decided to bring her husband and children from the U.S. to establish an Opera company in Venezuela. The venture ultimately became a failure and led the composer in 1887 to return with her family to the U.S. completely broke and demoralized.

A third marital separation led Teresa to move with her children to Paris. She was accommodated there by her brother who was then the Venezuelan Ambassador in France. Teresa retook her tours and concerts and also engaged in a fourth marriage, this time with composer Eugen DÁlbert. They had two children, Eugenia and Hertha. Unfortunately the relationship ended up in another divorce in 1894, under the accusations of adultery and even mental insanity by Eugen against her spouse. Even though these accusations were unfounded the composer’s health began to deteriorate after those facts took place.

Teresa Carreño died in 1917 at the age of sixty-four. Relatives and friends commented that her death resulted from the tiredness and the infinity range of turbulences she had to face during her whole life. Her ashes were laid to rest in Caracas at the Pantheon of Venezuela. She is considered one of the greatest Latin American composers and musical performers.

 

Compositions

Teresa began to compose at the age of seven. Then she composed popular pieces such as polkas and waltzes but also some contemplative and more austere songs. At the age of ten she had her first published piece, Vals Gottschalk, a homage to her professor and great pianist who supported her upon her arrival in the U.S. The following pieces were compositions dedicated to people or to special occasions such as Saludo a Cuba and the Impromptu offered to the Cuban composer and pianist Nicolás Ruiz Espadero, when she was touring in this Caribbean country.

As much as it had happened to Clara Schumann, Teresa’s compositions were directly influenced by the repertoire that she interpreted in recitals (pieces from the classical and romantic periods in general). They are generally virtuosic works for piano with wide chords, sequences of eighths for both hands and technically challenging passages such as the ones that can be heard in Le Printemps Op. 25. The author used to choose tones with several sharp (or flat) notes and applied scales in thirds and/or sixths, as the cascades of notes used by Thalberg and Liszt. In wide terms she always aimed to maintain a good coherence among the tonalities of the movements, as Beethoven used to do.

The native music of Venezuela also influenced the composition of Teresa Carreño, specially in the simultaneous usage of superimposed or juxtaposed ¾ and 6/8 metrics. Dances such as the Vals, Polka and Mazurka, derived from European suites, incorporated local melodies. Her Bal em Réve exemplifies the usage of these practices once the rhythm, composed of three successive eighth notes followed by two punctuated eighth notes, refers to the merengue venezuelano. In all of them Teresa introduced chromatic values to the traditional chords in order to provide them colors similar to the German romantic music and, thus, giving them a classical music atmosphere.

The author’s contact with Rossini and the Italian music became an influence to Un Revue à Prague Op 27, also known as Caprice de Concert. The musical genre Capricho had been explored by Mendelssohn, Chopin and Clara Schumann, under the enchantment of Italy and the opera. This is another Teresa’s virtuosic piece of joyful and witty character. In this piece one can notice her intention to insert some syncopated passages that characterize the Latin American music, following a reversed practice compared to the one mentioned in the previous paragraph.

Venice is the inspiration for the pendular murmur heard in Reverie-Barcarolle Op. 33, which reminds the movement of gondolas through the city canals. Also inspired by Italy, Florence Cantilene Op. 34 is considered by many the jewel of Teresa’s mature phase. Other significant compositions by the composer are the studies approaching difficulties commonly faced by pianists over their career path. This is the case of Le Ruisseau Op. 29, a lounge music study that intends to train consecutive intervals of sixths for both hands. In other direction Un Rêve en Mer brings successive chords in milder speed, being called by Teresa the “study-meditation for the mantra atmosphere”.


 

For more information:
  1. The Norton/Grove Dictionary of Women Composers, de Julie Anne Sadie & Rhian Samuel (Ed). New York, London: The Macmillan Press Limited, 1995. pp. 106-107.

  2. Mulheres Compositoras: elenco e repertório/Female Composers: cast and repertoire”, by Nilcéia Baroncelli (book). São Paulo: Roswitha Kempf Editores, 1987. pp 62-63.

  3. Teresa Carreño: una biografía autorreferencial”, by Violeta Rojo. Universidad Simón Bolívar, 2006. Available in: http://159.90.80.55/tesis/000147104.pdf.

  4. Teresa Carreño and her piano music, by Franco Gurman. University of Florida, 2006. Available in: etd.fcla.edu/UF/UFE0013744/gurman_f.pdf

  5. On women and composing in Latin America. An Approach, de Graciela Paraskevaídis. Available in: www.gp-magma.net/pdf/txt_i/Mujeres-WNMM.pdf

  6. Teresa Carreño: una excepcional compositora venezolana del siglo XIX, de Juan Francisco Sans. Revista de Investigación nº 69, vol. 34. 2010. Available in: http://www.scielo.org.ve/pdf/ri/v34n69/art03.pdf

  7. CARREÑO, T. Vals Mi Teresita (Gravação ao piano, Clara Rodriguez). Available in: https://www.youtube.com/watch?v=W6GuVJDv3w8

  8. CARREÑO, T. La Cesta de Flores (Gravação ao piano, Clara Rodriguez). Available in: https://www.youtube.com/watch?v=5pwEFIpY-dU

  9. CARREÑO, T. Ballade Op. 15 (Gravação ao piano, Alexandra Oehler). Available in: https://www.youtube.com/watch?v=FYfPwc89AdY

  10. CARREÑO, T. La Fausse note. (Gravação ao piano, Clara Rodriguez). Available in: https://www.youtube.com/watch?v=zicw3WetjCo