Rebecca Clarke

16/08/2016 08:17
Compositora do mês: Rebecca Clarke (1886-1979)

 
Biografia
            A inglesa Rebecca Clarke nasceu em Harrow, a 27 de agosto de 1886. Filha de mãe alemã e pai norte-americano, começou a estudar violino na Royal Academy of Music em 1902, com Hans Wessely. Segundo relatos da própria compositora, apesar da severa postura do pai, que relata como uma pessoa cruel, sua família cultivava o interesse pelas artes e incentivava seu estudo. Em 1907 ingressou no Royal College of Music, em Londres, sendo a primeira mulher a se especializar em composição na classe de Sir Charles Stanford. Foi ele quem a aconselhou a trocar o violino pela viola, cujo instrumento aprimorou em aulas particulares com Lionel Tertis e fez sua fama como intérprete.
Os estudos foram interrompidos em 1910, quando uma briga com o pai terminou em expulsão de Rebecca de casa, obrigando-a a ganhar o sustento como violista em conjuntos de câmera. Em sua trajetória independente, Rebecca tocou com artistas renomados, como Pablo Casals, Artur Schnabel, Jacques Thibaud, Myra Hess e Arthur Rubinstein. Foi uma das primeiras mulheres a ser admitida na Queen’s Hall Orchestra, quando Sir Henry J. Wood contratou seis instrumentistas do sexo feminino para aumentar a formação, em 1912. Após esta experiência, ingressou no quarteto de cordas montado pela violinista Nora Clench e fundou o quarteto com piano English Ensemble, ambos formados exclusivamente por mulheres.
O sucesso como compositora aconteceu nos EUA, após a Primeira Guerra. Antes disso, porém, Rebecca apresentou seu Morpheus no Carnegie Hall, em 1916, com boa acolhida. Em 1919 inscreveu, sob pseudônimo, sua Sonata para Viola a um prêmio oferecido por Elizabeth Sprague Coolidge para o Berkshire Festival of Chamber Music, ficando em segundo lugar. Tendo seu nome divulgado após a prova, o fato de ser mulher causou espanto no júri e chamou atenção para o seu nome.
Rumores chegaram a colocar em dúvida a real autoria da sonata de Rebecca Clarke, somente publicada em 1921. Não obstante, Elizabeth Coolidge concedeu-lhe um prêmio de $1.000 em 1923, para a composição de uma obra a ser apresentada no Pittsfield Festival. Foi a primeira vez que o suporte financeiro foi dado a uma mulher compositora, em anos de mecenato praticado por Mrs. Coolidge. A obra merecedora foi a Rapsódia para Violoncelo e Piano.
Apesar de apoiar algumas manifestações em prol de uma maior igualdade entre os sexos (Rebecca deu alguns concertos em benefício da causa sufragista, por exemplo), a musicista jamais se expôs, preferindo a neutralidade social. Em termos de estilo composicional, trocou a linguagem enérgica e desbravadora de obras como a Sonata e a Rapsódia por peças em um só movimento e com caráter mais intimista, frequentemente no estilo Impressionista de Claude Debussy e Maurice Ravel. A adoção de um vocabulário musical mais lírico se deve tanto a um movimento conservador que teve lugar na Inglaterra na década de 1920, pregando o fim das investidas feministas, como a um relacionamento amoroso furtivo vivenciado por Rebecca com o barítono John Goss. Casado e oito anos mais moço que a compositora, Goss inspirou e estreou diversas peças da autora.
O fim do romance com Goss em 1927 parece ter minado a disposição de Rebecca para a criação, que só retornaria uma década mais tarde. Seu Preludio Alegro e Pastoral foi estreado em Berkeley no ISCM Festival, em 1942. Em 1944 casou-se com o compositor e pianista norte-americano James Friskin e estabeleceu-se em New York. Trabalhou como professora, pesquisadora e palestrante, colaborando com algumas importantes publicações na área musical.

 
Composições
Rebecca Clarke tornou-se conhecida como compositora devido, principalmente, à sua contribuição para o repertório de viola. Sendo ela mesma violista experiente, produziu a maior parte das obras para suas próprias apresentações, sozinha ou com os grupos de câmara de que fez parte.
Suas primeiras composições são anteriores à sua entrada no curso de Stanford e cultivam estilos variados. Muitas são peças curtas para viola solo, cujas melodias exploram o modo pentatônico. A partir de sua estadia nos EUA, durante a 1ª Guerra, passa a utilizar harmonias e arroubos expressivos mais característicos do período Pós-Romântico, com melodias longas, mudanças bruscas de intensidade e sucessão de acordes com sétima sem resolução.
A forma sonata marca suas obras mais conhecidas: Sonata para Viola e Piano, Trio para Violino, Violoncelo e Piano e Rapsódia para Viola e Piano. Escrita em três movimentos, a Sonata para Piano inicia-se com uma espécie de fanfarra, seguida de um tema lírico no estilo impressionista. A escrita modal inclui, entre outras, coleções de tons inteiros e cromáticas. Variações timbrísticas surgem no segundo movimento, com mudanças na articulação e efeitos de ressonância nos dois instrumentos. O terceiro movimento é dedicado à lembrança e reelaboração de temas e motivos do primeiro, encerrando a peça de maneira virtuosística.
O Trio explora os recursos sonoros dos três instrumentos escolhidos por Rebecca. Enquanto a escrita alude ao Romatismo alemão pela variação progressiva dos motivos, o uso de bitonalidade remete-se à música da primeira década do século XX. Rebecca escolhe duas tonalidades separadas entre si por um trítono (intervalo de 4ª aumentada): Mi b m e La m. As notas destes acordes formam o material básico dos temas do primeiro movimento da peça.
A canção The Tiger, escrita para John Goss entre 1929 e 1933, é sua composição mais densa e expressionista. Atonal, traz no acompanhamento do piano uma colagem de trechos em trêmulos de acordes, arpejos e sucessão de oitavas, enquanto a voz desenha arcos que vão do registro grave ao extremo agudo. Tal expressionismo dará lugar ao neoclassicismo das obras de 1939 a 42, como a Passacaglia on an Old English Tune e o Prelude, Allegro and Pastorale. Compôs também algumas obras para coro sacro, como He that dwelleth in the secret place e God made a tree.
Apesar de variadas e reconhecidamente bem elaboradas, grande parte das composições de Rebecca Clarke permaneceram inéditas e relegadas ao esquecimento até seu nonagésimo aniversário, quando houve um interesse em publicá-las. Este cenário foi revertido a partir de 2000, quando as musicólogas Liane Curtis e Jessie Ann Owens fundaram a Rebecca Clarke Society. Desde então, mais de 25 obras da compositora foram divulgadas, sendo algumas desconhecidas por sua própria família. Pesquisas, concertos e gravações de obras da autora são hoje incentivadas e patrocinadas por esta entidade.

 
Para conhecer sua obra:

 
  1. The Norton/Grove Dictionary of Women Composers, de Julie Anne Sadie & Rhian Samuel (Ed). New York, London: The Macmillan Press Limited, 1995. pp. 119-120.
  2. Historical Anthology of Music by Women, de James Briscoe. Bloomington: Indiana University Press, 1987. pp. 251-252.
  3. Rebecca Clarke Society (Biografia, Catálogo de Obras, Informações sobre as obras, imagens). Disponível em: www.rebeccaclarke.org.
  4. New World Encyclopedia Contributors, ‘Rebecca Clarke’, 24/05/2013. Disponível em: http://www.newworldencyclopedia.org/entry/Rebecca_Clarke#Music
  5. Rebecca Clarke Morpheus (vídeo com Duo Karadis). https://youtu.be/XMu5Nrfk18A
  6. Rebecca Clarke Sonata for viola and piano (Antoine Tamestit – viola - and Ying-Chien Lin – piano) https://youtu.be/WqpiW0-2eTQ
  7. Rebecca Clarke Trio for Violin, Violoncello and Piano (vídeo com Ravel Trio: Simon Maurer – violin – Nancy Baun – cello – e Daniel Lau – piano). Disponível em: https://youtu.be/xG9KTFQsCXs.
  8. Rebecca Clarke The Cloth of Heaven: Songs and Chamber Works by Rebecca Clarke (CD). Patricia Wright (soprano), Jonathan Rees (violino) e Kathron Sturrock (piano). Guild Recorder, 2000.
  9. A Rebecca Clarke Reader, livro de Liane Curtis (Ed.). The Rebecca Clarke Society, Inc., 2004.

Composer of the month: Rebecca Clarke (1886-1979)
 
Biography
The English Rebecca Clarke was born in Harrow, on August 27, 1886. Daughter of a German mother and an American father, she began to take violin classes with Hans Wessely at the Royal Academy of Music in 1902. As per her own records her family cultivated a general interest in arts and even supported her music studies despite her father’s severe posture, a man she even described as a cruel person. In 1907 she was admitted in the Royal College of Music, in London, attending classes with Sir Charles Stanford and thus becoming the first woman to specialize in composition in his class. Sir Charles advised her to swap the violin for the viola, an instrument in which Rebecca enhanced the technique through private classes with professor Lionel Tertis and ultimately made her famous as a musician.
Her studies were interrupted in 1910, when an argument with her father produced her expulsion from her family home, a fact that obliged her to start earning her living as a violist in chamber music ensembles. Through developing an independent career path Rebecca played with renowned artists such as Pablo Casals, Artur Schnabel, Jacques Thibaud, Myra Hess and Arthur Rubinstein. She was one of the first women to be admitted in the Queen’s Hall Orchestra, when Sir Henry J. Wood hired six female musicians to augment the formation, in 1912. After this experience Rebecca joined the string quartet organized by violinist Nora Clench and also founded a piano and string quartet called English Ensemble, both composed exclusively by female musicians.
The success as a composer was achieved in the USA, after the World War One. But before that happened Rebecca had already presented her composition Morpheus at the Carnegie Hall in 1916, receiving a very good acceptance. In 1919, under a pseudonym, she enrolled her Viola Sonata in the competition prize offered by Elizabeth Sprague Coolidge for the Berkshire Festival of Chamber Music earning the second post. After the prize Rebecca had her name publicly revealed and the fact that she was a female composer astonished the jury and brought evidence to her name.
Rumours raised doubt about who the real author to this sonata by Rebecca Clarke was, an opus finally published in 1921. Nevertheless Elizabeth Coolidge granted her a prize of $1.000 in 1923 for a composition to be presented in the Pittsfield Festival. That was the first time in years of patronage by Mrs Coolidge a financial grant was provided to a female composer. The awarded composition was called Rhapsody for Cello and Piano.
Although Rebecca offered backing to some demonstrations in support of more equal rights between men and women (she gave some concerts in benefit of the suffragette cause, for instance), the musician never exposed herself, preferring to keep a social neutrality. In terms of compositional style, Rebecca gradually exchanged the energetic and pioneering language of works, such as the Sonata or the Rhapsody, by one-movement and more intimate-character pieces frequently following the impressionist aesthetic of Claude Debussy and Maurice Ravel. The adoption of a more lyrical musical vocabulary is a consequence to the conservative movement that took place in England during the 1920’s, preaching the end of the feminists strikes, as much as to a hidden love affair Rebecca had with the baritone John Goss. The singer was a married man, eight years younger than Rebecca and inspired and premiered several of her musical pieces.
The romance with Goss ended in 1927 and apparently undermined Rebecca’s willingness for composing new works, something that the composer would only retake a decade later. Her Preludio Alegro and Pastorale premiered in Berkeley at the ISCM Festival, in 1942. In 1944 Rebecca married the American composer and pianist James Friskin and settled in New York. She then worked as professor, researcher, lecturer and also collaborated with some important publications in the musical scenario.
 
Compositions
Rebecca Clarke became known as a composer mainly through her contribution to the viola repertoire. As an experienced violist she produced the majority of her compositions for her concerts, either soloing or for her chamber ensembles performances.
Her first compositions date from the period before her admittance in Stanford and permeate various styles. Several are short pieces for solo viola exploring the pentatonic mode. From her arrival in America on, during World War One, she starts to use harmonies and expressive raptures that are more frequent in the Post-Romantic period, with long melodies, sudden intensity changes and chords of seventh successions without resolution.
The sonata mode features Rebecca’s most popular works: Viola and Piano Sonata, Trio for Violin, Cello and Piano and Rhapsody for Viola and Piano. Being a three movement piece the Piano Sonata begins with a type of fanfare followed by a lyrical theme in Debussy’s impressionist style. The writing mode gathers, among others, collections of full tones and chromatics. Timbre variations emerge in the second movement with changes in the articulation and resonance effects in both instruments. The third movement is dedicated to the memory and re-elaboration of themes and motives of the first movement and then leading to a virtuous finale.
The Trio explores the sound resources of the three instruments chosen by Rebecca. While the writing alludes to the German Romantic mode, with its progressive variation of motives, the bitonality usage refers to the music of the 1910’s. Rebecca chooses two tonalities that are separated by a tritone (interval of augmented fourth): E b m and A m. These chords’ notes form the basic material of the themes in the first movement of the piece.
The song The Tiger, written to John Goss between 1929 and 1933, is Rebecca’s thickest and more expressionist composition. Being atonal, it brings in the piano accompaniment a collage of excerpts in trembling chords, arpeggios and successions of eighths, while the voice builds arches from the bass register to extreme treble. This expressionism will give room to the neoclassicism of her works between 1939 and 1942, such as Passacaglia on an Old English Tune and the Prelude, Allegro and Pastorale. Rebecca also composed some works destined to sacred choirs such as He that dwelleth in the secret place and God made a tree.
Even though Rebecca Clarke’s compositions were varied and recognized as well structured pieces, a great part of them remained unknown and unheard until her 90th anniversary when finally a wave of interest in her works reborn. The forgetfulness situation was mainly reverted in the year 2000 when musicologists Liane Curtis and Jessie Ann Owens founded the Rebecca Clarke Society. Since this advent more than 25 works by the composer were researched and disclosed, some of them completely unknown even to Rebecca’s family. Nowadays researches, concerts and recordings of Rebecca Clarke’s compositions are stimulated and sponsored by this entity.

 
More Information:

 
  1. The Norton/Grove Dictionary of Women Composers, de Julie Anne Sadie & Rhian Samuel (Ed). New York, London: The Macmillan Press Limited, 1995. pp. 119-120.
  2. Historical Anthology of Music by Women, de James Briscoe. Bloomington: Indiana University Press, 1987. pp. 251-252.
  3. Rebecca Clarke Society (Biography, catalogue of works, information, images). Available in: www.rebeccaclarke.org.
  4. New World Encyclopedia Contributors, ‘Rebecca Clarke’, 24/05/2013. Available in: http://www.newworldencyclopedia.org/entry/Rebecca_Clarke#Music
  1. Rebecca Clarke Morpheus (video with Duo Karadis). https://youtu.be/XMu5Nrfk18A
  2. Rebecca Clarke Sonata for viola and piano (Antoine Tamestit – viola - and Ying-Chien Lin – piano) https://youtu.be/WqpiW0-2eTQ
  3. Rebecca Clarke Trio for Violin, Violoncello and Piano (video with Ravel Trio: Simon Maurer – violin – Nancy Baun – cello – and Daniel Lau – piano). Available in: https://youtu.be/xG9KTFQsCXs.
  4. Rebecca Clarke The Cloth of Heaven: Songs and Chamber Works by Rebecca Clarke (CD). Patricia Wright (soprano), Jonathan Rees (violin) and Kathron Sturrock (piano). Guild Recorder, 2000.
  5. A Rebecca Clarke Reader, livro de Liane Curtis (Ed.). The Rebecca Clarke Society, Inc., 2004.