Francesca Caccini

16/05/2016 20:09

Compositora do mês: Francesca Caccini (1587-c. 1640)

 

        Biografia

A italiana Francesca Caccini, também conhecida como La Cecchina (trocadilho sobre o termo cecchino, que significa atirador de elite), nasceu em Florença a 18 de setembro de 1587. Foi a primeira compositora de que se tem notícia a escrever uma ópera, além de ser autora de uma vasta produção musical. Além disso, foi a artista – cantora e compositora - melhor remunerada na Corte Toscana, seja sob a direção do Grão-Duque Ferdinando I, de Cosimo II ou de Ferdinando II. Chegou a receber um convite para integrar o serviço musical da Corte Francesa de Henri IV, ao que foi impedida por Ferdinando I por não dispensá-la de sua equipe.

Sua família era repleta de exímios cantores. Sua mãe, Lucia Caccini, cantava na Corte de Medici.  Do pai, Giullio Romano Caccini, diz-se ter sido um dos criadores da nova música da Era Barroca, que privilegiava a monodia (uma linha musical cantada por solista) à polifonia (várias vozes em contraponto, característica da música Renascentista). A monodia favorecia a compreensão da letra pelo público e ia de encontro a práticas já em curso nos cultos protestantes. Florença e Veneza eram centros culturais menos conservadores do que Roma, e permitiam digressões estéticas desta natureza.

Francesca foi criada em um ambiente culto e com ideias modernas para a época. O acesso à literatura e ao ensino de diversos instrumentos talvez explique seu precoce destaque na história das mulheres, principalmente no âmbito da música erudita. O prestígio de seu pai possibilitou-lhe ser empregada como cantora, compositora e professora pela Corte Florentina em 1607. Além do salário proeminente, o contrato proporcionou-lhe um dote e um casamento arranjado com o cantor Giovanni Battista Signorini. Deste primeiro casamento nasceu Margherita Signorini, que se tornaria cantora e freira.

O apelido La Cecchina pode remeter-se ao temperamento tenaz e combativo da musicista. Francesca militava por valores republicanos num ambiente aristocrata. Em meados de 1620, a mesma se viu metida numa querela com Andrea Salvadori, poeta e libretista oficial da Corte, a quem acusou de indicar as namoradas para papéis de destaque em óperas de sua autoria. Salvadori vingou-se da acusação no libreto da ópera Donne musiche parlano dall’Inferno (Mulheres musicistas falam desde o Inferno), estreada em 1621. O clima de animosidade entre ambos durou até a saída de Francesca dos serviços da Corte de Medici, cerca de seis anos depois.

Viúva aos 39 anos, a compositora casa-se com Tomaso Raffaelli, rico proprietário de terras que lhe dará um filho varão, Tomaso.  

 

 

       Composições

Data de 1607 a composição da primeira obra de Francesca para o palco: La stiava. Esta foi uma das diversas peças criadas sobre versos do amigo Michelangelo Buonarrotti il giovane, sobrinho-neto do famoso escultor. Outras são a comédia La tancia (1611) e o balé Il passatempo (1614).

Em 1618 publica o que será conhecido como sua grande contribuição à música vocal, Il primo libro dele musiche. Nos moldes de publicações feitas por seu pai anteriormente, o livro oferece canções de estilos, gêneros e graus de dificuldade variados, voltados ao canto solo com abordagem didática.

       Il primo libro delle musiche foi, na época, o mais completo e extenso compêndio de composições para canto solo escrito por um único compositor. Dividido em duas partes, traz 19 canções sacras nos formatos moteto, soneto, ária e madrigal, e 13 profanas, nas formas canzonette, hino e cantos originados na cultura popular italiana. Além destes gêneros musicais, a compositora criou 4 duetos para soprano e baixo. Organizou-os de acordo com o estilo, o caráter e a técnica empregada, apontando as dificuldades mais comuns e possíveis resoluções de ornamentos.

       Ousadias harmônicas que viriam a caracterizar a música Romântica do século XIX - como dissonâncias sem preparo prévio, acordes de sétima diminuta sem resolução e ênfase na expressividade - podem ser observadas em sua obra. Trabalha com diferentes qualidades de escalas para criar ambientes específicos para as personagens de suas dramatizações.

Na ópera La liberazione di Ruggiero dall’Isola d’Alcina, uma das poucas partituras de Caccini que sobreviveram à passagem do tempo, a mesma expõe a relação da mulher com o exercício do poder de sedução contrapondo uma boa feiticeira andrógina a uma sexualmente diabólica. A boa feiticeira foi representada pelo estilo recitativo sobre uma escala menor natural, enquanto a diabólica cantava sobre a escala menor harmônica (com sétimo grau alterado para gerar tensão).

             

 

Para conhecer sua obra:

1.          Francesca Caccini - Lasciatemi qui solo (gravação). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=xvw66rtLpkg&nohtml5=False

2.          Francesca Caccini - La liberazione di Ruggiero dall’isola d’Alcina (vídeo). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pXozGldzMLY&nohtml5=False

3.          Francesca Caccini – documentário. Disponível em:  https://www.youtube.com/watch?v=prhzVrlrBOM&nohtml5=False

4.          Francesca Caccini - O che nuovo stupor (gravação). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Fq01-IeDAo4&nohtml5=False

5.          La Cecchina: songs from Francesca Caccini’s Il primo libro dele musiche. (CD). Henriette Feith (soprano), David von Ooijen (theorbe), Jasper Shweppe (baritone) & David Jansen (organ). Elise Mathilde Fonds.

6.           Mulheres Compositoras elenco e repertório, de Nilcéia Baroncelli (livro). São Paulo: Roswitha Kempf Editores, 1987. P. 54.

7.          Historical Anthology of Music by Women, de James Briscoe (livro). Bloomington: Indiana University Press, 1987. pp. 22-24.

8.          The Norton/Grove Dictionary of Women Composers, de Julie Anne Sadie & Rhian Samuel (Ed). New York, London: The Macmillan Press Limited, 1995. pp. 94-98.

9.          Francesca Caccini (1587-1641): composer, performer, and professor represented in Il primo libro dele musiche, de Marina Miranda. Tese de Mestrado apresentada ao College of Arts and Sciences in Georgia State University, 2014.

 

Composer of the month: Francesca Caccini (1587-circa 1640)

 

        Biography

The Italian composer Francesca Caccini, known as La Cecchina (feminine to cecchino, meaning ‘sniper’), was born in Florence in September 18, 1587. As per musical records available to this day she was the first female composer of an opera, without mentioning the fact that she composed a vast musical catalogue. Besides that, she was the best well-paid artist – singer and composer - in Tuscany during her time, at the Medici court during the periods of the Grand Dukes Ferdinand I, Cosimo II or Ferdinand II. She was also invited to join the musical service of the French court, under the rule of Henry IV, but was not authorized by Ferdinand I who did not discharged her from his staff at the court.

Francesca was descended from a family of highly qualified singers. Her mother, Lucia Caccini, was a singer at the Medici court. Her father, Giullio Romano Caccini, is recognized as one of the creators of the new music of the Baroque era, which favored the ‘monody’ (a musical ode or line sang by a soloist singer) instead of the polyphony (with several voices in counterpoint which was a typical characteristic of the Renaissance music). The monody permitted the ode lyrics to be understood by the audience and was aligned to the common practice used in protestant cults during those days. Florence and Venice were less conservative cultural centers than Rome then and, as a consequence, allowed aesthetics digressions of that kind.

Francesca was raised in a cult ambience where modern ideas were allowed - specially considering those times. Being able to have access to literature and teaching classes of several musical instruments may explain her early distinction in the history of women, specially in the field of classical music. Her father’s reputation helped her to be hired as singer, composer and teacher by the Florentine court in 1607. This position allowed her to be paid a prominent salary and contributed for her dowry and arranged marriage with the singer Giovanni Battista Signorini. She had a daughter from this first marriage, Margherita Signorini, who would become a singer and nun.

Francesca Caccini’s nickname, La Cecchina, can be explained by her tenacious and combative character. Francesca was an active supporter of republican values living in an aristocratic environment. In mid-1620, Francesca found herself in a quarrel with Andrea Salvadori, poet and the court’s official librettist, whom she accused of assuring prominent roles in his operas to his female affairs de coeur. Salvadori took revenge of this accusation in his opera librettoDonne musiche parlano dall’Inferno’ (‘Female musicians speak directly from hell’), which premiered in 1621. This animosity situation between them continued until the moment Francesca concluded her musical services to the court of Medici, approximately six years later.

A widow at the age of thirty-nine, the composer engaged in a second marriage with Tomaso Raffaelli, a wealthy estates owner, who gave her another child, her son Tomaso. 

 

       Compositions

Caccini’s first composition, the stage work La Stiava, was conceived in 1607. This was one of the several pieces she composed upon poems by her friend Michelangelo Buonarrotti, il giovane, grandnephew of the famous sculptor. Other compositions deriving from this partnership were the comedy La tancia (1611) and the ballet Il passatempo (1614).

In 1618 Caccini’s published a work that would be recognized as her greatest contribution to the vocal music, Il primo libro dele musiche. Following the scope of publishings previously conducted by her father, this book offered songs of diverse styles, types and difficulty grades dedicated to the soloist chanting and presented a careful didactic approach.

       Il primo libro delle musiche was, at its time, the most complete and vast compositions catalogue for soloist chanting conceived by one composer. Divided in two parts the catalogue gathered 19 sacred songs, in the ‘motet’, ‘sonet', ‘aria’ and ‘madrigal’ formats, and 13 profane songs, in the formats of ‘canzonette’, ‘hymn’ and chants from the Italian popular culture. Beyond these musical styles, the composer conceived 4 duets for soprano and bass voices. She organized them in accordance to style, character, selected technique and pointing the most common difficulties and its possible ornaments resolutions.

       It is possible to observe in Caccini’s works the bold harmonies that would ultimately characterize the Romantic music of the XIX century - such as the dissonances without previous indication, diminished seventh chords without resolution and the emphasis in expressivity. Caccini worked with different qualities of scales in order to build the specific atmospheres for the characters of her dramatizations.

In the opera La liberazione di Ruggiero dall’Isola d’Alcina, one of Caccini’s few musical scores that survived the passage of time, the plot presents how a woman relates with the seduction power through establishing a counterpoint between the character of a ‘good androgynous sorcerer’ and another of a ‘sexually diabolic one’. The good sorcerer is represented by the recitative style over a natural minor scale while the diabolic sorcerer sings over a harmonic minor scale (with altered seventh grade to produce and express tension).     

 

Francesca Caccini’s works::

1.      Francesca Caccini - Lasciatemi qui solo (audio). Available at: https://www.youtube.com/watch?v=xvw66rtLpkg&nohtml5=False

2.      Francesca Caccini - La liberazione di Ruggiero dall’isola d’Alcina (vídeo). Available at: https://www.youtube.com/watch?v=pXozGldzMLY&nohtml5=False

3.      Francesca Caccini – documentary. Available at:  https://www.youtube.com/watch?v=prhzVrlrBOM&nohtml5=False

4.      Francesca Caccini - O che nuovo stupor (audio). Available at: https://www.youtube.com/watch?v=Fq01-IeDAo4&nohtml5=False

5.      La Cecchina: songs from Francesca Caccini’s Il primo libro dele musiche. (CD). Henriette Feith (soprano), David von Ooijen (theorbe), Jasper Shweppe (baritone) & David Jansen (organ). Elise Mathilde Fonds.

6.       “Mulheres Compositoras elenco e repertório", by Nilcéia Baroncelli (book). São Paulo: Roswitha Kempf Editores, 1987. P. 54.

7.      Historical Anthology of Music by Women, de James Briscoe (book). Bloomington: Indiana University Press, 1987. pp. 22-24.

8.      “The Norton/Grove Dictionary of Women Composers”, by Julie Anne Sadie & Rhian Samuel (Ed). New York, London: The Macmillan Press Limited, 1995. pp. 94-98.

9.      Francesca Caccini (1587-1641): composer, performer, and professor represented in Il primo libro dele musiche, by Marina Miranda. Masters‘ thesis presented to the College of Arts and Sciences in Georgia State University, 2014.

 

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